É #FAKE que vacinas aprovadas contra Covid-19 contenham óxido de grafeno e possam tornar a pessoa magnetizada.


Por Roney Domingos, G1

 

É #FAKE que vacinas aprovadas contra Covid-19 contenham óxido de grafeno e possam tornar a pessoa magnetizada
Reprodução

Circulam pelas redes sociais textos e mensagens que dizem que foi descoberto óxido de grafeno nas vacinas, o que faz com que as pessoas imunizadas fiquem magnetizadas. É #FAKE.

 — Foto: G1

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Óxido de grafeno não está presente na composição de vacinas, de acordo com as fabricantes. Além disso, a universidade citada na mensagem falsa refuta que endosse qualquer estudo neste sentido. E um especialista em aplicação de grafeno na engenharia biomédica reforça que toda a história é uma mentira.

As publicações falsas fazem referência ao programa La Quinta Columna, em que dois pesquisadores falam sobre a "descoberta". Essas publicações também dizem que a Universidade de Almeria confirmou a validade dos resultados. Mas a Universidade de Almeria fez um comunicado no Twitter refutando o boato e fazendo um alerta para as "falsas afirmações". A universidade reafirma ainda seu total apoio às vacinas contra a Covid-19.

Procuradas pelo G1, as fabricantes de vacina reforçam que óxido de grafeno não está na composição dos imunizantes. As bulas, aliás, estão disponíveis e podem ser consultadas no site da Anvisa.

"As substâncias presentes na vacina são: hidróxido de alumínio, hidrogenofosfato dissódico, di-hidrogenofosfato de sódio, cloreto de sódio, água para injetáveis e hidróxido de sódio para ajuste de pH", diz o Butantan.

"Com relação às informações que têm circulado em redes sociais e aplicativos de mensagens sobre a vacina ComiRNAty, contra a Covid-19, produzida pela Pfizer e pela BioNTech, esclarecemos: É falsa a informação de que a vacina da Pfizer contra a Covid-19 contém óxido de grafeno", diz a Pfizer.

"A vacina produzida pela Fiocruz não possui ingredientes em sua composição capazes de provocar efeito magnético no organismo. A lista de substâncias acrescidas à formulação das vacinas é pública e consta de suas respectivas bulas. Trata-se de uma vacina segura e amplamente testada, não havendo qualquer evidência científica que relacione a vacina a efeitos dessa natureza", diz a Fiocruz.

"Informamos que a vacina da Janssen contra a Covid-19 não possui óxido de grafeno em sua composição", afirma a Janssen.

Explicações

Professor do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de São Paulo (ICT/Unifesp), Nirton Cristi Silva Vieira estuda a aplicação do grafeno na engenharia biomédica. Ele afirma que a publicação que circula em redes sociais não é verdadeira.

A aplicação de óxido de grafeno em vacinas é uma teoria ainda em estudo e o professor explica em que contexto isso pode ser viável no futuro, deixando claro desde já que isso nada tem a ver com tornar as pessoas detectáveis, como propalado pela mensagem falsa.

Em primeiro lugar, Vieira explica que algumas vacinas utilizam um sistema para a entrega controlada do RNA mensageiro (que não altera o DNA de ninguém) e que contém o código genético de proteínas semelhantes à proteína de espinho do coronavírus. Conhecido como sistema “drug delivery", trata-se de nanopartículas formadas por lipídeos (“gorduras” ou moléculas orgânicas naturais) que protegem o RNA da degradação e atuam para que ele entre nas células.

Já dentro das células, os ribossomos usam o código genético para produzir cadeias de proteínas semelhantes às proteínas de espinho do coronavírus. Então, o sistema imunológico gera a defesa do organismo contra essas cadeias proteicas (anticorpos, por exemplo). Uma pessoa vacinada, portanto, caso contraia a Covid-19, vai estar protegida, uma vez que os anticorpos produzidos se ligarão à proteína do coronavirus, evitando que o vírus se ligue ao receptor celular.

Veja o vídeo explicativo indicado pelo professor:

Existem outros sistemas para a entrega controlada de fármacos que geralmente são nanopartículas (partículas com dimensões equivalentes à bilionésima parte de um metro, ou 10-9 m).

"Neste contexto, o óxido de grafeno poderia, sim, fazer parte de um destes carreadores ou sistemas para a entrega controlada de fármacos no organismo no contexto de vacinas", diz o professor.

Ele fala de um trabalho liderado pelo pesquisador Daxiang Cui em que o óxido de grafeno decorado com carnosina (molécula formada por dois tipos de aminoácidos) é biocompatível.

Daxiang Cui utilizou este sistema para desenvolver uma vacina (em testes iniciais) contra Covid-19 usando o sistema óxido de grafeno-carnosina como carreador para a entrega de uma molécula de material genético sintético (CpG) e antígeno proteico (para estudos).

"O grupo de pesquisa confirmou a produção de anticorpos neutralizantes após a vacinação. Neste caso, a molécula CpG e a proteína de espinho do SARS-CoV-2 foram misturadas com o sistema óxido de grafeno-carnosina. Após a vacina em teste ser aplicada em camundongos, o sistema imunológico desses camundongos foi estimulado, produzindo anticorpos neutralizantes. Em resumo, esta vacina foi até a fase pré-clínica (teste em animais) e não há mais publicação a respeito."

Então, tomando-se esse cenário, caso uma vacina utilizando um sistema contendo óxido de grafeno venha a ser utilizada em humanos, ela terá de passar por mais testes, explica o professor.

"Além de um estudo mais rigoroso na fase pré-clínica, a hipotética vacina passaria por testes de fase 1, onde a vacina é testada num pequeno grupo de voluntários (para se avaliar a sua segurança e confirmar a resposta do sistema imunológico), fase 2 e fase 3, como vimos para as recentes vacinas para a Covid-19. Portanto, uma hipotética vacina utilizando, por exemplo, um sistema contendo óxido de grafeno recoberto com moléculas biocompatíveis, se fosse aprovada pelos órgãos de controle como a Anvisa ou a FDA, não causaria problemas para as pessoas."

Detalhe importante: o óxido de grafeno não pode tornar uma pessoa detectável ou magnetizada. "O óxido de grafeno é um material isolante", diz o professor. "Já o grafeno puro, diferente do seu óxido, é condutor. Portanto, a resposta é não. O óxido de grafeno não pode tornar uma pessoa detectável tampouco magnetizada."

Vieira explica que o grafeno (material condutor) e seus derivados como o óxido de grafeno (material isolante) podem ajudar na pandemia de Covid-19, como mostra a publicação "Potential of graphene-based materials to combat Covid-19: properties, perspectives, and prospects", sobretudo para o desenvolvimento de testes rápidos (biossensores) e superfícies antivirais à base desses materiais